Eu precisava só de um pouco mais
pra ser um pouco menos tão pesada
pra sorrir um pouco menos triste
pra chorar um pouco mais feliz. bc.

me equilibro
nas pontas
de um fazer
sem contas
não sei
onde termino
ou começo
onde me encontro
ou me perco
saber
leva tempo
e eu
só estou de passagem

Geraldo de Barros

Pode ser que uma pessoa tenha mais de uma função em sua vida, mas algumas chegam somente para te fazer a pessoa mais feliz do mundo e, quando chega, muda todo o ritmo desordenado da sua vida. Pode ser que em algum momento da sua vida você queira a todos e não haja espaço para um grande amor em sua vida, mas chega uma hora em que inesperadamente alguém passa a ser tudo o que você precisa e não haja espaço para outras necessidades. Pode ser que de uma vez por todas você decida que não queira amar ninguém, pelo fato de ter se decepcionado todas as vezes que alguém se aproximou de você dizendo que o amava, porém, quando dois corações resolvem se pertencer, não há força maior que possa os separar. Pode ser que a palavra amor já não te faça mais tanto sentido, pode ser que as circunstâncias o tenha feito desistir de sonhar com o tão perfeito amor vindouro, pode ser que a distância tenha destruído todos os teus planos, pode ser que o amor dos teus pais não tenha dado certo e como punição você se mantenha afastado de toda e qualquer possibilidade de amar, mas sempre chega uma hora em que não é possível deixar-se de fora de toda aquela sentimentalidade e o mundo passa a ser pequeno demais para duas pessoas, em algum momento a vida passa a fazer mais sentido à dois e todos aqueles motivos contras já não significam exatamente nada. Então, pra quê dar tanta importância aos “pode ser”?

alemdestastelhas:

Me deixa borrar tua solidão
quebrar o teu silêncio,
atrapalhar a tua leitura do nada,
me deixar ir.
Ir contigo, do céu ao inferno,
poético.

Areia impregnada em cada poro, sal invadindo o paladar, timidez do sol. Me seguro em qualquer coisa a fim de conseguir enxergar algo que chame minha atenção. Falo pra mim mesma palavras encorajadoras, estimo a gentileza mútua, piso descalça no asfalto pronta pra sentir o que tantos outros sentiram. Parece uma eternidade. Continuo olhando pro alto. Agora há grades e telhas. Nada mais. Lágrimas começam a cair. Várias delas. Confirmo e configuro, desabo por completo, caio meio sem jeito, poupo você de mim. E desabo. Concluo que toda matéria que deixou de ser prima passa pelo processo de reciclagem. Me faço acreditar na minha própria mentira. Negar é afirmar. Me lembro de agradecer pela interrupção de mais uma fraude. Trago ódio, tenho febre, traio profecias, juro ilusões, julgo até não suportar os próprios pensamentos. Prendo o que me entretém e o abandono quando bem entender. 

o céu era cinza e eu não vestia azul.

eu era dessas crianças comuns, com cheiro de neston. com uma ideia imbecil de salvar o mundo, de abrigá-lo em um lugar seguro, era dessas crianças comuns, que chorava quando ralava o joelho. 

babe, hoje em dia eu não salvo nem a mim mesma! 
o cinza chumbo do céu combinaria com o azul da minha saia, mas eu não vestia azul e tampouco gosto de saias.
eu queria salvar o mundo, babe, e hoje é o mundo quem quer ser salvo de mim. esse peso todo é demais pra ele, é demais pras pessoas ao meu redor. hoje troquei the smiths, por um acústico de pink floyd, mas se quer saber, me dói do mesmo jeito, as lágrimas caem seguindo os acordes do violão e essa cidade não ameniza a minha infelicidade. 

era dessas crianças comuns, com cheiro de neston. que queria salvar o mundo e hoje em dia nem se salva.

E que outros infinitos minúsculos venham. 

Sabe, por vezes tenho a impressão que sou ruim em tudo o que faço, em cada detalhe. Ao colocar água para o cachorro, num apertar de mãos, num passo qualquer. O problema é que isso me reprime, perturba, inquieta meu ser. Poderia ser ao contrario, eu deveria estar tranquila, era minha obrigação aquietar-me e esperar aonde tudo isso iria parar. Porem, não tenho capacidade de tal feitio, minha mente me acusa, me joga contra a parede. Pessoas me acusam, me espremem sem remoço. Não olham para mim, não veem o que meus olhos gritam. Não enxergam o que meus olhos expressam. Talvez, no final de tudo, eu realmente seja uma má pessoa.

Quiçá. Provavelmente.

Mas moço

Mesmo se eu soubesse pra onde ir
De nada valeria
Eu estou perdida é aqui dentro
Dentro de mim

H.

Somos tóxicos um ao outro. Quando estamos juntos, os piores defeitos revoam sobre nós. Mas ainda sim, prefiro ser tóxica com você, do que com qualquer outra pessoa.

você entende que não é drama esse meu desespero? eu não preciso de você pra reconhecê-lo. eu sozinha o vejo, sozinha o encaro, sozinha o entendo, aceito e conserto. eu sozinha já me viro e não é drama, é só verdade. é só vontade de deixar escrito que eu sou gente e que eu sinto. que eu sou gente e que a minha carne tem ferida. que eu sou gente e sangro. não é drama, é derme. 
a epidemia das novas carências passou por aqui
e não ficou.

sozinha eu te garanto, ainda não preciso de ninguém.

Sinto-me suja e sozinha. Saíram e esqueceram a luz apagada. Tento vestir minha roupa, ela já não me cabe, o passado é uma casca dura e grossa e difícil de remover, é tinta respingada em cimento. Brotam sobre minha carne púrpura ervas-daninhas que precisam ser expurgadas. O barro de que sou feita não sustenta a ira do meu sangue. Jarros trincados. Péssimos oleiros. Os objetos estão nos seus lugares, mas envelheceram, eu envelheci. Camafeus mal esculpidos. Nunca consegui enxergar direções em bússolas. Tomo um banho, dizem que a água tudo cura, não me curou. Tétanos em meu peito. A chave gira do lado de fora da porta. Sinos apodrecem dentro de mim. Enrolo uma toalha sobre meu corpo. Lúcio se aproxima com um sorriso nos lábios, seus risos de infância. Ignorante da epilepsia e dos demônios que tomaram minha alma, ele me beija. Pinturas de Klint. Eu tinha certeza do seu sumiço e agora ele aparece dono de mim e eu procuro os pedaços que me roubaram. Um furto caro e permitido. Diamantes azuis. Rios encharcam a cama e eu faço amor com a facilidade de quem se deita para o sexo. O sol penetra docemente pela janela e espera à margem da cama.

Descortinar

cansei de ser só,

agora virei dó. 

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