Eu precisava só de um pouco mais
pra ser um pouco menos tão pesada
pra sorrir um pouco menos triste
pra chorar um pouco mais feliz. bc.

na escuridão
ainda guardo teu cheiro
e a saudade desenha versos
do que se senti
e não se pode ver.

Elisa Bartlett

Talvez eu precise de uma terapia especial, pra me destraumatizar, e tirar esse rolo de fios, no peito e na garganta, que antes não me deixava respirar e agora não me deixa falar, nem cantar.”

meu bem, já enfrentei tempestades piores, mares mais agitados, noites e dias mais sufocantes, já cai inúmeras vezes e levantei a mesma quantidade, não por ser forte, mas porque era preciso, é preciso, os minutos não param, a vida não para, não espera a dor passar, o vazio se preencher ou você se levantar. algumas vezes é preciso levar alguns tapas na cara para aprender a deixar de sentir.

corpos feito fios de fumaça
se espreguiçando no ar
entre as minúsculas partículas flutuantes de luz

faróis que destroem as avenidas largas estreitando o traço
direto no alvo
na lua
na superfície prata das mãos que também dançam e se mastigam

o fio neon das extremidades
e suas pontas cortantes
teus olhos brilhantes
que assistem agudos em mim
direto no âmago
no tango da alma
que traçam
meus seios estrelares
norteiam a ponta dos pés
sobre a pele
na tua miopia macia
enebriante
que és só minha
és só meu

Sentei-me numa mesinha arredondada, que tinha os pés bambos, a aparência rústica e pouco convidativa. possuía uma cadeira ao lado da minha, mas não havia ninguém. A iluminação era péssima e sombria, mas nada que me fizesse levantar e sair caminhando daquele ambiente. A poucos metros de mim havia um balcão, atrás deste tinha uma mulher jovem e muito sensual, seu corpo esguio me fazia ter desejos insanos e surreais (com ela sendo a protagonista, claro), aquela beldade era a balconista. Levantei-me e fui até ela, a apreciei de perto e delirei. Fiz meu pedido, uma bebida, uma caneta e um papel. Ela olhou-me de um modo estranho, apenas sorri e voltei para sentar-me. Logo meu pedido chegou. Comecei a escrever insanidades sem fim. A moça me tentou (mesmo sem saber) e eu cedi aos encantos daquela bela donzela. As palavras saiam soltas, cada uma para um lado. O papel já estava inteiramente rabiscado e a bebida tinha acabado. A rapariga veio ao meu encontro e perguntou se eu desejava algo mais, imediatamente ergui a cabeça, penetrei meus olhos nos dela e esbocei um sorriso de canto. Voltei a olhar aquele papel, e naquele momento as palavras não pareciam tão desconexas, elas uniam-se nas entrelinhas e tudo era ligado a ela. Maldito dia que resolvi me embebedar, e não só de palavras, mas também de cobiça. Levantei-me do assento e fiquei frente a frente com aquela belíssima mulher, peguei o papel rabiscado e devolvi a ela a caneta emprestada, sorri, paguei pelo drinque, agradeci e disse que voltaria outra hora (por ela), desejei a ela uma boa noite e retirei-me do bar. Essas histórias de botequim de esquina começam assim, por uma dama e uma bebida.

Benício Arruda, escritor de boteco.

pode ser teu vulto
ou tua volta
o que vejo no fim
da rua

eu tinha pressa de te encontrar, só para descansar minha solidão nos teus braços.

moçoila dos desejos

dona dum sorriso encantador

venha aqui, 

deixe-me dançar com seu olhar.

quero me perder de mim,

me achar dentro de ti,

juntar nossa respiração,

vamos até o fim.

mulher, rapariga 

me entorpece, me aquece

se encaixe em mim,

vamos assim,

até que tudo recomece.

Benício Arruda, escritor de boteco.

O ar está pesado. Meu pulmão está cansado, fadigado. Onde está a mascara de oxigênio? Estou suando frio. Não respiro. Está tudo rodando. As pessoas estão bailando em volta de mim. Espere, meu corpo está estático, gélido. Eu ando, mas não me movo. Eu grito, mas não emito som. Eu tento, mas não consigo. Eu tentei, mas fracassei. 

Os olhos fecham, a alma vaga.

como diz nando reis, falta é a morte da esperança. 

sinto falta de tanto, de tudo. 

minha esperança já foi violentada, amordaçada, estraçalhada. 

ainda assim sinto. sinto falta.

corpos suados,

mentes vadias,

gemidos abafados,

almas sombrias.

 a noite é dos poetas.

o seu cheiro penetrou em mim e agora faz morada em minhas narinas.

preciso de outra dose de você.

1 2 3 4 5 Próxima